Capela de S. Lourenço
A pequena capela de São Lourenço, situada no cimo da serra com o mesmo nome, foi reedificada no século XVII e restaurada recentemente. Conta-se que esta capela foi ali construída, pois a imagem do São Lourenço desaparecia da sua capela, situada mais abaixo, para depois ser encontrada ali. No entanto, o lugar privilegiado em que se encontra, e que permite a quem se encontra em Manteigas assistir ao nascer do sol em todo o seu esplendor, sobre o mesmo, no solstício de verão, sustenta a ideia de que se trataria de um lugar onde se praticariam cultos pagãos. Desta forma poderá ter-se estabelecido ali uma capela de culto católico para que o paganismo associado ao local fosse extinto.
A lenda sobre a criação desta capela refere então que a primeira capela de S. Lourenço se localizava numa zona mais baixa da serra, na “Relva do Cambaia”, ao fundo da velha cana, sobranceira a Pendil, e bem à vista dos Mortórios, Poço do Inferno, Leandres e Souto do Concelho, sendo ainda referido por José Lucas Baptista Duarte, na sua Antologia, que esta primeira capela foi posteriormente votada ao culto de São Gabriel. Mas diz a lenda que existia na encosta do Souto do Concelho um vulcão e que tendo entrado em erupção, colocando a vida de Manteigas em perigo, os manteiguenses pediram ajuda ao Altíssimo e prometendo contruir uma capela a São Lourenço, se tal tragédia não os alcançasse. E miraculosamente, a lava que vinha escorrendo parou no alto da montanha que hoje conserva o nome do Santo. No entanto, na hora de cumprir o voto, o povo resolveu construir a capela prometida num local mais acessível, pois aquele onde o milagre tinha ocorrido era longe e os mais velhos não o poderiam visitar. Porém, o Santo desaparecia frequentemente deste templo para depois ser encontrado no cimo da serra, e tal era a insistência do Santo, que finalmente se optou por construir ali uma capela, à qual ficaria adjudicado um Ermitão. Este vivia da esmola e ajuda do povo. Conta a história que uma senhora cansada do ermitão que pedia pelas ruas e do seu pregão de agradecimento, para não o ver mais à sua porta, lhe deu bolo envenenado, e estando já o ermitão recolhido foi surpreendido por um grupo de caçadores que procurava abrigo de uma tempestade que os apanhara no caminho. Logo o ermitão os ajudou e com eles partilhou as esmolas que recebera. Aconteceu que o bolo envenenado foi comido por um caçador que era filho da referida senhora, vindo a falecer do sucedido. O alarme soou na vila, e logo a senhora se denunciou e confessou o mal que tentara fazer e que caiu sobre ela como castigo. Ficou o ditado, que era pregão do ermitão: “Fazei bem, irmãos; quem o bem faz, a si o faz.”
Sendo a sua criação tão envolta em lendas, não se pode assegurar a existência da capela primordial, nem uma data concreta da sua construção. Não obstante, uma placa no interior desta capela apresenta a legenda que foi reedificada em 1612.
Esteve muitos anos votada ao abandono, até que o bispo D. Albino (manteiguense) se empenhou em retomar a romagem regular de culto e festa no verão de cada ano, no dia 10 de Agosto. Até ali, apenas a família Cunha Matos, de São Gabriel, que tinha casa de férias perto da capela, se ocupava de celebrar lá missa aos domingos e em tempo de férias, quando subiam a serra e ali permaneciam.
A imagem de São Lourenço é muito antiga, talvez do século XIV ou XV, em pedra de Ançã, de traçado tosco e aspeto rústico, e encontra-se guardada no tesouro de Santa Maria. Sendo colocada uma imagem de madeira, de vulgar escultura, no seu lugar do altar. No entanto, a imagem tradicional do Santo regressa à capela no dia da sua festa, para a missa, procissão e convívio entre os romeiros.
A pequena capela, bem rústica do século XVII, foi reformada no século XIX, a partir da traça primitiva e material de seixo, construíram-se três paredes que a protegem dos temporais e intempéries. Estas guardam alguma distância da parede interior, permitindo que a água que escorre do telhado de duas águas, em chapa zincada, vá desaguar à parte posterior da mesma. Foi reformada em 1875 por Manuel da Cruz Filipe; é tida como testemunho documental da “Devoção de Maria José Leitão, por última vontade do seu irmão José Leitão”. Numa placa da parede lê-se ainda: “Tem a Ladeira de Pendil a S. Lourenço 2620 passos e foi acabada a torre de Santa Maria no mesmo dia desta capela a 4 do 12 de 1875.” O interior, guarda apenas um pequeno altar em madeira de talha dourada, com pormenores a vermelho sobre fundo branco, e na parte inferior os motivos foram pintados mais rusticamente com as iniciais “S.L.” ao centro. O teto em madeira é trifacetado.
São Lourenço é um mártir da Igreja que foi condenado à morte pelo Imperador Romano Valeriano, sendo queimado vivo sobre um braseiro ardente, sobre uma grelha. Desta forma ficou associado a incêndios, queimaduras, vulcões, e os bombeiros tomaram-no como um dos seus patronos. Também em Manteigas ficaria conotado com os incêndios e à proteção daqueles que combatem as chamas, por isso junto da sua capela os respetivos serviços construiriam o “Torreão”, do cimo do qual se vigiavam as florestas de Manteigas para nascente (Sameiro) e para sul e poente (Carvalhais e Leandres, S. Sebastião e Carvalheira, até às Penhas Douradas, e para lá da serra até ao Mondego).
Estado de Conservação
Razoável à data de 29-08-2014
Observações
A sua localização, próxima à fábrica de São Gabriel, torna o acesso difícil, e a vegetação que prolifera ao seu redor piora a situação, assim a capela encontra-se quase abandonada.
Bibliografia
Antologia I – Depoimentos Histórico – Etnográficos sobre Manteigas e Sameiro, José Lucas Baptista Duarte, Edição da Câmara Municipal de Manteigas, 1985
Guia do Apreciador de Pintura – “Histórias e personagens que inspiraram as obras-primas da pintura ocidental” – Marcus Lodwick, Editorial Estampa, 2003
Dicionário Enciclopédico das Freguesias – 3º volume, Editora ANAFRE, 1997
“Padre Joaquim Dias Parente” – O Homem. A Obra. A Missão. A Mensagem. – Nos 50 anos da sua morte – 20-X-2007 – Manuel Ferreira da Silva, Paróquia de Santa Maria, Manteigas, 2007
Fontes:
Corografia Portuguesa, 1708, pág. 351
Memórias Paroquiais de 1758, reunidas pelo Padre Luís Cardoso
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