Património Industrial
Sendo Manteigas uma vila com forte tradição na indústria de lanifícios, foram surgindo ao longo dos séculos muitos edifícios que permaneceram no tempo e que se encontram hoje, muitos deles, completamente votados ao abandono. Este património edificado, de cariz industrial, é de uma riqueza extrema e deveria ser preservado como memória cultural, material, de um povo, para que as gerações futuras tomem conhecimento e não esqueçam o que de melhor se fez na sua terra. Mas a que se refere a expressão Património Industrial? Porque devemos considerar Património estes produtos da ação humana, objetos de trabalho, aparentemente frios e inertes, pavilhões industriais e suas maquinarias?
Podemos dizer que os lugares de memória instituem-se quando não existe mais aquilo a que aludem. Por conseguinte, podemos afirmar que o património industrial surge quando os métodos tradicionais de trabalho industrial começaram a ser substituídos, na segunda metade do século XX, pelas novas tecnologias, mais avançadas, e que tornaram obsoletos os edifícios, máquinas, formas e processos de produção industrial, que subsistiam do século XIX ou primeiras décadas do século XX.
De forma mais ampla, o património industrial diz respeito aos processos produtivos, aos modelos empresariais, às matrizes tecnológicas que tendo cumprido o seu ciclo evolutivo, desapareceram. Desta maneira, os vestígios materiais e imateriais dessas atividades permanecem como testemunhos das mudanças culturais que acompanharam os modelos produtivos.
Estes testemunhos de tecnologias e de formas produtivas já ultrapassadas, que se transformaram em Património Industrial, ficaram inscritos na história como herança cultural, daí que seja necessário salvaguardá-los e conservá-los, de forma permanente.
A arquitetura industrial que frequentemente continua a ser ignorada, e que em Manteigas é abundante, torna-se muitas vezes em monumentos invisíveis, são testemunhos edificados de processos produtivos antiquados. Esta mesma arquitetura começa entretanto, na sequência do desenvolvimento do conceito de património industrial, a suscitar inúmeras ações, seja de ordem patrimonial, urbanística ou económica. Existem neste momento vários exemplos de prédios industriais sobre os quais se fizeram incidir práticas de musealização, como é o caso do Museu dos Lanifícios da Covilhã, instalado na antiga Real Fábrica de Panos; e vários são os exemplos de revitalização de regiões industriais abandonadas e inúmeros os efeitos dessas intervenções na economia local, contribuindo para um novo tipo de turismo. Veja-se o caso de São João da Madeira que vem desenvolvendo fortemente o turismo industrial, promovendo a visita às fábricas ainda ativas da região e apostando na recuperação daquelas que foram abandonadas.
Relativamente ao caso específico de Manteigas são vários os exemplos de edifícios industriais que chegaram até aos nossos dias, desde fins do século XIX e inícios de século XX. A maior parte encontra-se em elevado grau de degradação. Trata-se de edifícios fabris antes cheios de vida e que estão hoje abandonados, em risco de se perderem no tempo. Apenas o exemplo da Casa da Roda se pode encarar como uma tentativa de salvar este património, dando novo uso a um edifício secular. Porém, não é suficiente, existindo na vila inúmeros casos de complexos industriais que sendo recuperados poderiam preservar a história dos lanifícios que caracterizou o panorama socioeconómico de Manteigas nos últimos séculos.
O caso mais evidente é o complexo industrial de São Gabriel, ou firma Mattos Cunha, Ld.ª, pois é revelador de um momento chave no cenário da industrialização nacional. O complexo é composto por um conjunto de edifícios de natureza distinta, uns relacionados com a produção industrial, outros de carácter administrativo e, ainda, os edifícios de uso quotidiano e social. Nos diversos espaços dos pavilhões, onde antes o barulho da fiação e dos teares era insuportável, onde o cheiro da lã e o cheiro das máquinas se misturavam, onde o pó da lã ao ser cardada formava densas nuvens, hoje encontram-se vazios, cheios de silêncio. A viva paisagem industrial, à medida que a fábrica perdia vigor e ia parando as suas atividades, transformou-se numa paisagem de abandono. E a memória daqueles tempos, do movimento das máquinas, dos operários que preenchiam os seus postos de trabalho, foi-se perdendo entre os mais velhos que ainda assistiram a esse ambiente fabril.
Este caso de São Gabriel é mais flagrante devido à dimensão do complexo e por se tratar da viragem do século, revelando nas suas estruturas ainda muitos vestígios da arquitetura do ferro, típica de finais do século XIX. No entanto, existem muitos outros casos de abandono de edifícios industriais, como por exemplo a “Fábrica dos Martins” perdida na paisagem, caindo em ruínas, embora alguns dos edifícios tenham sido recuperados pela unidade hoteleira do Inatel. A “Fábrica dos Fragas” que também vai caindo aos poucos, com uma parte adaptada a armazém, ou o enorme complexo da SOTAVE com edifícios mais recentes, mas completamente desativados.
A maquinaria que ocupava estas estruturas arquitetónicas, alguma da viragem do século XIX para o XX, levanta mais uma vez a questão da preservação, pois o abandono em que se encontram, poderá levar à sua perda irremediável.
O Património Industrial deve ser encarado como Património Cultural desta vila serrana, que exige uma defesa ativa, de forma a proteger as antigas fábricas e as máquinas que ainda subsistam nos locais. A identificação e inventariação de todas elas é o primeiro passo.
Bibliografia
Websites consultados
4http://3-historia-patrimonio-industria.blogspot.pt/p/resumos-e-cvs.html
http://www.turismoindustrial.cm-sjm.pt/contents/view/fabricasavisitar
http://www.museu.ubi.pt/
http://www.ubimuseum.ubi.pt/n01/docs/ubimuseum-n01-pdf/CS3-mendes-jose-amado-o-patrimonio-industrial.pdf
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